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Produção de mulas e burros geneticamente “aprimorados” para participação em provas equestres

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Produção de mulas e burros geneticamente “aprimorados” para participação em provas equestres

O uso de muares (burros e mulas) na lida da fazenda e em esportes equestres já é muito comum devido à rusticidade dos jumentos e às habilidades herdadas das raças das éguas utilizadas nestes cruzamentos. Entre os cruzamentos interespécies mais conhecidos no Brasil está o de jumentos da raça Pêga com éguas Mangalarga Marchador, com o objetivo de produzir animais de marcha, tanto para lida como para concursos. Porém, há também outros cruzamentos interespécies sendo utilizados, como de jumentos com éguas Quarto de Milha, para a produção de muares destinados à prática de esportes equestres.

A maioria dos criadores produz muares através de prenhezes de suas éguas, sendo a técnica de transferência de embriões ainda não muito popular. Esta técnica vem sendo trabalhada na produção de muares de elite pelos criadores Luiz Gustavo do Nascimento, da propriedade Península Ranch, em Corumbaíba (GO), e Thiago Fedrigo, da Agropecuária Fedrigo, em Jatai (GO), em uma central de transferência de embriões no Haras Mabe, em Quirinópolis (GO), através de um cruzamento ainda não tão popular (de jumentos da raça Nacional com éguas Quarto de Milha), no intuito de produzir animais de alto padrão genético, com linhagem voltada para o trabalho e para o esporte equestre, como provas de laço, apartação, Team Penning e Working Cow Horse.

É importante ressaltar que, apesar de o cruzamento de jumentos com éguas ser utilizado há muito tempo, o comum é a reprodução ser realizada por intermédio de monta natural ou até inseminação, com a produção dos muares através das prenhezes destas éguas. Já o cruzamento de jumentos com éguas Quarto de Milha via transferência de embriões é, ainda, um investimento razoavelmente novo, tendo o objetivo de produzir muares de alto padrão genético, destinados principalmente para o esporte equestre. Esta técnica facilita a utilização destas éguas de alto padrão genético para os cruzamentos, produzindo mulas e burros excelentes para estes esportes.

A opção pela transferência de embriões nestes cruzamentos se deu por esta técnica   apresentar   uma   série de vantagens. Entre elas, está o aproveitamento dos ciclos das éguas após o encerramento da estação de monta que, no Quarto de Milha, vai até, no máximo, fevereiro, pela questão do “produto bem-nascido”, podendo-se utilizar os meses de março, abril e maio para trabalhar com inseminações e transferência de embriões com o sêmen de jumentos (portanto, utilizando as mesmas éguas que coletaram embriões com garanhões para coletar com jumentos). E a utilização das éguas geneticamente superiores, como a campeã mundial de laço e as outras éguas importadas, sem deixá-las prenhas, podendo conseguir mais de um produto por égua, de ambos os cruzamentos, em uma mesma estação de monta.

 No processo de transferência de embriões destes cruzamentos, pode ser utilizada a monta natural ou a inseminação artificial com sêmen a fresco, seguida pela transferência do embrião formado, dias após a concepção, para uma receptora, com todo o procedimento realizado pelo médico-veterinário responsável. Geralmente, os embriões são transferidos para éguas receptoras mestiças, utilizando o mesmo protocolo de inseminação e transferência de embriões de equinos. Porém, constatou-se uma taxa de perda embrionária muito maior entre os embriões de muares comparados aos embriões equinos.

Dentre as dificuldades encontradas no processo reprodutivo deste cruzamento interespécies está a reabsorção embrionária. A princípio, a taxa de confirmação dos embriões nas receptoras é alta, em média 70%, mas havendo uma perda considerável destes embriões nos primeiros 60 dias de gestação.

Por este motivo, no intuito de aprimorar o protocolo reprodutivo deste cruzamento, foi necessário estudar as descobertas do médico-veterinário Diego Guedes Campos, realizadas através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Veterinária da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Segundo o Dr. Diego, a manutenção da gestação em éguas, assim como nas demais espécies domésticas, requer constante síntese de progesterona (P4), e sua produção em éguas se dá, além de pelo corpo lúteo primário (CL), também por corpos lúteos suplementares (CLS).

Outros estudos identificaram que, apesar de a incidência de perda gestacional ser maior em éguas que transportam embrião de jumento do que em éguas com embrião de garanhão, esta perda não pode ser atribuída apenas às baixas concentrações de progesterona associadas com a prematura regressão dos cálices endometriais (o que ocorre em éguas com a gravidez interespecífica), mas sim que a falta de eCG (gonadotrofina coriônica equina) poderia facilitar a ocorrência de alguns abortos em que a ativação de luteólise parece estar envolvida.

Com estas informações, o estudo conduzido pelo Dr. Diego realizou a dosagem de eCG de éguas prenhas de jumento e de garanhão e acompanhou, por ultrassom, a formação ou não de CLS, objetivando avaliar se há ou não efeito do macho na formação de CLS nas éguas e correlacionar o índice de eCG e P4 nas éguas que formaram ou não as estruturas.

Para o experimento, foram utilizadas éguas em idade reprodutiva, um reprodutor asinino da raça Pêga e um garanhão da raça Mangalarga Marchador como doadores de sêmen. Os resultados demonstraram o desenvolvimento de CLS em 75% das éguas estudadas e verificou- se efeito do reprodutor sobre os valores séricos de P4 e eCG, sendo que as éguas cobertas por garanhão tiveram maior frequência de formação de corpos lúteos suplementares, comparadas às éguas cobertas por jumento. Nas éguas com  4 CLS suplementares, os valores séricos de P4 e eCG foram superiores aos obtidos em éguas sem formação de CLS.

Apesar disso, os resultados desta pesquisa demonstraram que a formação de CLS não foi fundamental para a manutenção da gestação em éguas prenhas de jumento, já que cinco éguas do estudo não desenvolveram CLS e mantiveram sua prenhez.

Portanto,  estes   resultados   reforçam a teoria de que a incidência de perda gestacional é maior em éguas com embrião de jumento não apenas devido às baixas concentrações de P4, mas, principalmente, pelo estímulo antigênico das células trofoblásticas invasoras ao organismo materno.

Após estas descobertas, foram necessárias algumas mudanças no protocolo reprodutivo utilizado na produção de muares e as taxas de reabsorção embrionária destes embriões diminuíram, sendo possível obter maior sucesso na produção destes animais, não havendo mais diferença estatística em comparação com as perdas embrionárias de embriões equinos nas transferências realizadas por ela. Este investimento vem se comprovando muito viável comercialmente, tendo em vista os valores que estes burros e mulas atletas vêm conquistando em leilões.

 

Autor: Alessandra Crosara Testa – Médica-veterinária e especialista em Reprodução Equina